O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou em maio a menor variação mensal dos últimos quatro meses, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado reforça a percepção de que a inflação brasileira segue em trajetória de moderação, embora analistas alertem que o caminho ainda não está consolidado.

O índice subiu 0,28% no mês, abaixo da mediana das projeções de mercado, que apontavam para 0,35%. No acumulado de 12 meses, a inflação oficial recuou para 4,1%, patamar considerado compatível com a meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, ainda que no limite superior da banda de tolerância.

Alimentos e transporte puxam desaceleração

O grupo de alimentação e bebidas apresentou variação de apenas 0,12%, impulsionado pela queda nos preços de hortaliças e frutas após período de alta sazonal. Carnes e derivados, por outro lado, mantiveram pressão moderada, reflexo de custos elevados na cadeia produtiva e da demanda aquecida em períodos de feriado.

No transporte, a desaceleração foi mais visível. Combustíveis registraram queda de 0,8%, em linha com a redução dos preços internacionais do petróleo e com a política de paridade de importação adotada pela Petrobras. Passagens aéreas, que costumam apresentar forte volatilidade, contribuíram negativamente para o grupo, aliviando o bolso de viajantes e de empresas com despesas de deslocamento.

"A inflação perde força, mas o Banco Central ainda precisa de evidências consistentes antes de acelerar o ciclo de afrouxamento monetário."

O que o mercado espera da Selic

Com o dado de maio, economistas revisaram suas projeções para a taxa Selic. A mediana do Boletim Focus passou a indicar taxa terminal de 10,5% ao ano para o ciclo atual, com possibilidade de novo corte de 0,25 ponto percentual na reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom).

Entretanto, a incerteza externa permanece como fator de cautela. A valorização recente do dólar frente ao real pressiona preços de bens importados e eleva o custo de insumos para a indústria. Analistas do setor automotivo, por exemplo, já sinalizam que repasses parciais podem ocorrer no terceiro trimestre caso a tendência cambial se mantenha.

Serviços seguem como ponto de atenção

Apesar do alívio nos bens, o grupo de serviços continuou apresentando inércia elevada, com alta de 0,45% no mês. Educação, planos de saúde e serviços pessoais concentraram as maiores pressões. Economistas explicam que serviços respondem com defasagem aos ciclos econômicos e tendem a ser os últimos a ceder em processos de desinflação.

Para famílias de classe média em capitais como São Paulo e Belo Horizonte, a combinação de serviços caros com alívio parcial em alimentos e combustíveis produz sensação ambígua: o supermercado ficou um pouco mais barato, mas mensalidades escolares e contratos de saúde seguem em alta.

Perspectivas para o segundo semestre

O IBGE não faz projeções, mas instituições financeiras já trabalham com IPCA entre 4,0% e 4,5% em 2026. O diferencial dependerá principalmente da safra agrícola — cuja colheita promete ser robusta para soja e milho — e do comportamento do câmbio em um ano eleitoral municipal.

O Ministério da Fazenda, em nota oficial, destacou que a desaceleração "confirma a eficácia das políticas econômicas adotadas" e reafirmou compromisso com responsabilidade fiscal. Já representantes da oposição argumentam que a população de baixa renda ainda sente os efeitos de preços elevados no acumulado dos últimos anos, especialmente em itens de cesta básica.

Para o Banco Central, o desafio é calibrar a política monetária sem comprometer a atividade econômica. O PIB brasileiro cresceu 0,6% no primeiro trimestre, segundo dados revisados, e o mercado de trabalho formal mantém ritmo de criação de vagas, embora em velocidade menor que a registrada em 2025.

O Ponto Atual acompanhará as próximas divulgações de inflação e as atas do Copom, que costumam trazer sinalizações importantes sobre a condução da política monetária nos meses à frente.